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Ritual frenético no fim da tarde

O espetáculo Macumba Antropófaga, encenado por 22 atores do Teatro Oficina Uzyna Uzona, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, encerrou a Flip em ritmo forte. Do interior da Tenda do Telão, com parte das lonas laterais abertas, podia-se ver, ao longe, as montanhas da baía de Paraty. O suave anoitecer de domingo ofereceu uma variação de luz com certo efeito de encantamento sobre as a movimentação intensa das moças e rapazes, quase todos seminus. Eles saíram e entraram várias vezes, arrastando com eles um público que, empolgado, mas também indeciso, não sabia bem para onde devia olhar.

No centro da tenda, um amplo quadrilátero de areia, como um terreiro de macumba, tinha ao centro uma pira que depois, acesa, transformou-se, por assim dizer, em uma churrasqueira. Dali surgiu a bisteca que, quase ao final do espetáculo, marcou o momento máximo do ritual antropofágico. Isso teve o seu impacto sobre o público. Do ponto de vista estético, entretanto, a cena mais significativa ocorreu do lado de fora da tenda, em um recanto cercado por tapumes na Praia do Pontal. Ali, um jovem casal encenou um contido e elegante ritual com taças de bebida, depois despiu-se e passou a uma cena de sexo, já então num ritmo selvagem, enquanto os outros atores cantavam ou percutiam tambores, alguns deles empoleirados nas árvores.

No telão, de início, foram projetadas imagens associadas ao ambiente cultural da antropofagia, como a tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, e o rosto do escritor Oswald de Andrade, homenageado na Flip deste ano. Numa segunda fase do espetáculo, entretanto, ali apareciam as cenas captadas pela câmara operada pelos próprios atores. Os espectadores, se quisessem, podiam acompanhar o que se passava dentro e fora da tenda. Não houve, em nenhum momento, a possibilidade de assistir ao espetáculo comodamente sentado, como num teatro convencional. Quando as pessoas sentavam, o próprio Zé Celso, que circulava na tenda vestido de branco, com uma túnica plástica, insistia para que elas levantassem. Em seguida, o contrário. As pessoas se agitavam, em pé, e aí era a vez dos atores fazê-las sentar e pedir silêncio. Essa alternância de ritmos marcou o espetáculo do início ao fim. No início da noite, muitos espectadores também tiraram a roupa e foram fazer companhia aos atores no centro do terreiro. O elenco distribuiu vinho e frutas.


Já perto das 8 horas da noite, três autores que tomaram parte da Flip compareceram à Tenda do Telão, acompanhados do curador, Manuel da Costa Pinto, com seus livros de cabeceira. A argentina Pola Oloixarac leu um trecho de Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov; o português valter hugo mãe recordou o início de Metamorfose, de Franz Kafka; e finalmente o poeta gaúcho Eduardo Sterzi recitou o poema Em Creta com o Minotauro, do português Jorge de Sena. Depois deles, vários dos atores do espetáculo subiram à mesma bancada, com o formato de uma bigorna, no centro do terreiro, para cantar ou apresentar trechos de outras obras literárias.




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