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Três jovens que escrevem sobre a morte

A primeira mesa da Flip, na manhã de quinta-feira, enfrentou um tema que talvez seja o mais persistente na literatura universal: a morte. E no palco não estavam senhores grisalhos, vividos, que pudessem ter preocupações de ordem imediata com o assunto, e sim, para deleite geral, e surpresa geral da nação, três jovens escritores brasileiros com carreira ascendente e muito seguros de si, mesmo diante de uma plateia que, na média, os superava em idade, com folga.

“Escritas da Finitude” teve como participantes André de Leones, Altair Martins e Carlos de Britto e Mello (da esquerda para a direita), sob mediação do crítico literário João Cezar de Castro Rocha (de blazer). Este último, ao introduzir a sessão, fez uma pergunta crucial -- por que todos nós necessitamos da ficção? – que embora sem resposta conclusiva serviria de gatilho para as reflexões de seus convidados, já que todos eles, em seus textos, tratam a morte com tintas ficcionais. Trata-se de “uma prosa com vocação filosófica”, nas palavras do apresentador.

“A morte está presente em quase tudo o que escrevi”, admitiu Leones, que também é estudante de filosofia em São Paulo. E explicou que a origem dessa preferência temática poderia estar no alto índice de suicídios em sua cidade natal, a pequena Silvânia, de 10 mil habitantes, no interior de Goiás. Certa vez, ao comparecer ao velório de um amigo suicida, em que todos os presentes se perguntavam por que o rapaz tomara tal decisão, o escritor, ao contrário, indagou a si próprio: “E por que não? Só que eu, em vez de me matar, escrevo sobre quem se matou”.

O mais desembaraçado dos três, o gaúcho Martins, citou seu conterrâneo Mário Quintana para referir-se às diversas perdas a que uma pessoa é submetida ao longo da vida e que, afinal de contas, constituem demonstrações preliminares da finitude humana. A ideia de que “somos mortes ambulantes”, nas palavras do poeta, serviu de fio condutor para a reflexão do jovem escritor. Para Martins, “a literatura é uma arte que nos faz entender as mortes essenciais” como a que ele próprio teve de enfrentar, aos 6 anos de idade, quando perdeu o pai em um acidente de motocicleta.
Para Mello, que é mineiro, uma das lembranças mais antigas sobre a morte é um carro com alto-falantes que percorria as ruas de uma cidade interiorana, anunciando o falecimento de alguma pessoa da comunidade.

Na vida real, opinou ele, a morte não representa apenas um trauma, um tema, mas sobretudo uma “força operatória”, como a denomina, ou uma abertura de novas possibilidades para os sobreviventes, que então precisam fazer um esforço de ajuste à ausência de alguém. Para superar esse momento difícil, as pessoas se entreolham, se questionam e também fazem uma espécie de leitura pessoal do que acaba de suceder. E aí surge a narrativa.

Mello acredita que o desaparecimento de uma pessoa constitui, em última instância, “um problema para a linguagem”. E sintetiza seu ponto de vista na constatação de que, não apenas no interior de Minas, mas em todos os lugares, “os que sobram constroem narrativas a partir da morte de alguém”.


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