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Imagem do arquivo Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (IEB USP) – Fundo Mário de Andrade, documento: MA-F-1873c
70 anos sem ele

Em 25 de fevereiro de 1945, num domingo, morria em seu quarto na rua Lopes Chaves, 546, em São Paulo, o poeta Mário de Andrade. Às 22h40, Mário pediu ao amigo Luís Saia que segurasse sua xícara de chá. “Não estou me sentindo muito bem”, disse, e vergou-se para frente. Quem conta é Marcos Antonio de Moraes em seu Orgulho de jamais aconselhar, estudo sobre a correspondência de Mário de Andrade, autor homenageado da Flip 2015.

Perto da meia-noite, a casa já começava a ficar apinhada de amigos e parentes. O escritor carioca Luis Martins foi buscar Gilda de Mello e Souza, sobrinha do escritor, e o marido, Antonio Candido – o casal de professores teria papel central na consagração póstuma do autor de Macunaíma. O crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, o maestro Camargo Guarnieri e a pintora Tarsila do Amaral também estavam lá para velar o amigo. Os frades da Ordem Terceira do Carmo cuidaram de cobrir o corpo conforme as tradições da irmandade. O enterro seguiu-se no dia seguinte, às 17h, no cemitério da Consolação.

Embora o clima fosse de perplexidade, o próprio escritor era dado a fazer previsões sobre a data de sua morte. A Moacir Werneck de Castro, afirmou que “aconteceria por volta de 1949”. Depois, o prazo foi encurtando: “Em conversa com amigos [...] baixou para 1943 (quando faria 50 anos), pois se sentia péssimo de saúde. Então adiou o fim para os 51 anos de idade. Era tudo meio brincadeira, mas acabou acertando. Morreu com 51 anos e quatro meses”.

“Esta morte é estúpida, mais do que qualquer outra” – escreveu Carlos Drummond de Andrade, ainda no calor da hora, numa crônica doída. Era uma das primeiras homenagens em verso e prosa que pipocariam nos próximos dias, semanas e meses. Em dezembro, Drummond incluiu em seu livro A rosa do povo o poema “Mário de Andrade desce aos infernos”.

Manuel Bandeira também evocou o amigo em “A Mário de Andrade ausente”, poema compilado no livro Belo belo: “Anunciaram que você morreu/ Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:/ A alma profunda, não/ Por isso não sinto agora a sua falta”. Vinicius de Moraes relembrou o momento em que recebeu a notícia no poema “A manhã do morto”: “Ergo-me com dificuldade/ Sentindo a presença dele/ Do morto Mário de Andrade/ Que muito maior do que eu/ Mal cabe na minha pele”.

Rubem Braga, que nunca tivera amizade com Mário devido a um desentendimento político, resolveu “lhe render uma limpa e fervorosa homenagem” dez anos depois de sua morte em crônica no jornal Correio da Manhã. Encerrou com uma previsão acertada: “A qualquer momento a obra de Mário voltará a ser admirada, estudada e discutida com um interesse e uma paixão que talvez só encontre paralelo na obra de Machado de Assis”.

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